Mídia paga

5 lições que aprendi com o Google Brasil

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Eder Queiroz

Cinco anos sentando em agenda com o time do Google Brasil me ensinaram mais sobre estratégia do que sobre a própria plataforma. Aqui estão as cinco lições que mais ficaram, nem sempre óbvias na hora, quase sempre confirmadas depois.

1. O algoritmo é tão bom quanto o dado que você alimenta nele

Performance Max e Demand Gen automatizam decisão de lance e posicionamento, mas dependem de sinal de conversão limpo pra otimizar bem.

Campanha automatizada rodando em cima de conversão mal configurada (evento duplicado, valor de venda errado, lead sem qualificação) não erra menos que gestão manual. Erra na mesma proporção, só que mais rápido e em escala maior.

A pergunta certa nunca foi "o algoritmo é bom". Foi "o que estou entregando pra esse algoritmo otimizar".

Vi isso repetido em toda campanha nova que estreava mal: quase sempre o problema estava na configuração de conversão, não na plataforma em si. Corrigir o sinal resolvia o que parecia ser "o algoritmo não funciona".

2. Criativo virou a alavanca mais importante da mídia paga

Com lance automatizado dominando a maioria das campanhas, a diferença entre resultado bom e ótimo deixou de estar no ajuste manual de lance. Passou a estar na variedade e na qualidade do criativo.

Isso inverteu uma prioridade antiga. Times inteiros de mídia paga passavam mais tempo otimizando configuração do que produzindo variação de anúncio, exatamente o oposto do que hoje move resultado.

Isso não significa abandonar estratégia de lance ou segmentação. Significa que, com boa parte disso automatizada, o tempo do time rende mais produzindo criativo novo do que ajustando parâmetro manualmente.

3. Vídeo constrói memória que a performance materializa depois

O efeito de uma campanha de Vídeo raramente aparece no relatório da própria campanha. Aparece semanas depois, no custo por resultado de Search e Performance Max rodando em paralelo.

Isso é difícil de vender internamente porque não bate com a expectativa de retorno imediato. Mas é consistente demais, ano após ano, pra ser coincidência.

Empresa que avalia Vídeo pelo mesmo critério de campanha de conversão direta tende a cortar exatamente o investimento que estava preparando o resultado das semanas seguintes.

4. A jornada do usuário não é linear, e a atribuição nunca é 100% fiel

Ninguém mais compra numa linha reta. A mesma pessoa vê um Vídeo no celular de manhã, pesquisa no notebook à tarde, esbarra num anúncio de Demand Gen à noite, e converte três dias depois em outro dispositivo.

Performance Max existe, em parte, por causa disso: nenhuma campanha isolada consegue acompanhar esse trajeto sozinha, então a plataforma tenta reconstruir o caminho inteiro por trás dos panos.

Reconstruir não é o mesmo que registrar com exatidão. Todo modelo de atribuição é aproximação, não verdade absoluta, e já vimos no post sobre ROAS como essa sobreposição entre canais infla resultado reportado em 15% a 20%, em média.

Quem trata número de atribuição como fato definitivo, em vez de estimativa, decide orçamento em cima de uma história que só parece completa.

5. Marca barateia performance, e isso não é opinião

Essa foi a lição que mais se repetiu, em quase toda agenda. Investir em marca impacta performance, de um jeito que a maioria dos relatórios de mídia paga não mostra.

Les Binet e Peter Field publicaram, em 2013 pela IPA, a análise de 996 estudos de caso conhecida como regra 60/40: em média, 60% do investimento deveria ir pra construção de marca, 40% pra ativação de curto prazo.

Dado da WARC (2024) reforça isso: marca com alto reconhecimento reduz custo de aquisição entre 30% e 50%, e converte a uma taxa 2,5 vezes maior que concorrente desconhecido.

Na minha passagem pela Senior Sistemas, geri mídia na casa dos milhões e liderei o lançamento nacional de uma campanha de marca com Gustavo Kuerten. O padrão se repetia: período de maior investimento de marca puxava, semanas depois, custo por lead mais baixo nas campanhas de performance.

Isso é experiência profissional anterior, não dado de cliente DOBRA, mas é o mesmo efeito que Binet e Field descreveram, dentro de uma operação B2B real.

Nem todo pesquisador concorda com 60/40 como regra universal. Byron Sharp, do Ehrenberg-Bass Institute, critica a proporção como baseada em dado de prêmio de agência, não causalidade comprovada, e diz que a proporção certa varia demais pra virar fórmula fixa.

Ele tem razão num ponto: 60/40 é média histórica de um contexto específico, não lei. O que fica, mesmo com a divergência acadêmica, é o princípio: marca e performance não são orçamentos concorrentes.

O que fazer com essas cinco lições

Nenhuma delas exige trocar de plataforma ou aumentar orçamento. Exige revisar o que alimenta o algoritmo, quanto tempo vai pra criativo, e se marca ainda existe na conversa de mídia ou já foi cortada faz tempo.

Qual dessas cinco sua operação já aplica, e qual ainda trata como teoria de agência?

Fontes e metodologia

Les Binet & Peter Field, "The Long and the Short of It" (IPA, 2013) WARC, Multiplier Effect (2024) Byron Sharp, Ehrenberg-Bass Institute — crítica pública à regra 60/40 (Mi3-LinkedIn B2B Next Summit)

Experiência com o time do Google Brasil e gestão de mídia descrita vêm de trajetória profissional anterior do autor, não de dados de cliente DOBRA.

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